Cheiro de alecrim
Passeava pelos corredores de uma velha casa, segurando uma velha boneca, que acabara de achar no mesmo lugar que um dia a deixei. Tudo era tão familiar, e um cheirinho de alecrim exalava por todo canto... Tudo me fazia recordar dos traços de uma face marcada pelo tempo, que nela sempre havia um sorriso irradiante e aconchegante. Eram recordações tão boas, lembranças tão ternas, tão lindas... Elas me faziam parar o tempo só para revivê-las!
Ainda andando pelos corredores, decidi ir para a cozinha. Entrando nela, ainda podia sentir o cheiro do bolo de milho assando no forno, ainda podia ouvir as gargalhadas estrondantes que um dia foram soltas ali. Andando mais um pouco pela casa fui em direção da varanda, ali me deparei com uma velha cadeira de balanço, onde recordei dos meus olhos atentos e cheios de atenção e curiosidade, ao ouvir as histórias mais belas, as mais engraçadas e horripilantes.
Continuei a vagar pelos cômodos vazios da velha casa, quando finalmente cheguei ao quarto, onde tive um súbito contato com lembranças que me afogavam em um mar emaranhado de tristezas... Olho tristemente para a cama vazia e vejo o fim de uma vida. De uma vida de histórias, de vivências, de tristezas, de alegrias e de principalmente amor.
Ponho-me de joelhos ao redor da cama e volto em minhas memórias há vinte anos atrás, quando tinha apenas sete anos. E vejo de novo aquela face cansada repousando na cama, com os olhos umedecidos olhando fixamente para mim, tentando me explicar o que estava prestes a acontecer. Eu não entendia o que estava acontecendo, estava cega pela inocência. Sabia que ela estava doente, mas pensava que logo ela iria melhorar como sempre melhorava dos meus resfriados.
Ela chorava como uma criança, e aquelas lágrimas me deixavam confusa. Percebia seu sofrimento para manter seus olhos abertos, mas não sabia que ela estava lutando para que a morte não a levasse. Percebi também, seu esforço para falar algo, que por fim acabou dizendo:
"Querida, lembras quando te contei que a Branca de Neve comeu a maçã envenenada e acabou morrendo?"
“Anrã, sim me lembro, mas logo ela voltou a viver!" (respondi entusiasmada).
“Ah, querida... (ela começa a chorar descontroladamente, sufocando sua voz) Tua vó comeu destas maçãs, mas não te preocupes, morrerei, mas como a Branca de Neve voltarei a viver! Voltarei a viver querida, nos teus mais belos sonhos, ao anoitecer quando ouvires os cânticos da natureza serei eu minha pequena, cantando para tu dormires. E quando sentires saudades olhas para o céu estrelado e verás que estarei iluminando a tua vida. Mas principalmente querida, quando olhares para o teu coração tu lembrarás do meu amor que eternizará minha vida em ti!"
Essas foram suas últimas palavras, mas as palavras que marcaram e marcarão a minha vida para sempre! A "maçã que envenenou" minha avó foi um câncer que acabou levando ela de mim. Apesar de tudo, aprendi muitas coisas com tudo isso, aprendi que toda história tem começo e um fim, mas as marcas que ela deixa na época, nas pessoas que fizeram parte dela são eternas ... E até hoje a vejo nos meus sonhos, a escuto quando vou dormir, e quando sinto saudade olho para o céu estrelado e a sinto me iluminar, e quando olho para meu coração vejo suas marcas de amor, e sei que ela sempre estará eternamente viva em mim!
Fim...
Islaine

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